A Vida de Manuel da Conceição Graça - Pt. III


Uns anos mais tarde nasce a sua filha, que por volta dos 16 anos já o ajudava a tomar algumas das mais importantes decisões. Viria a formar-se em “Económicas e Financeiras”. Um dos segredos do negócio era discutir sempre os próximos passos em família.

Pela mesma altura, a empresa Braz & Irmão, no Carregado, tinha comprado um camião da marca Vulcan. Após um acidente, este veículo necessitou de uma nova cabina, trabalho que foi entregue a Manuel da Conceição Graça. 

O responsável pelo stand que efetuou a venda do mesmo camião reparou no bom trabalho realizado nesta reparação e decidiu entregar à MCG os trabalhos de preparação das cabinas de todos os camiões da mesma marca que chegavam de Inglaterra.

Foi o início da atividade de preparação de cabines, que mais tarde acolheu também as marcas Adkison, Bedford, Leiland e AEG.

Expandir o negócio

O crescente volume de trabalho motivou a mudança para umas novas instalações, com base num arrendamento nunca confirmado através de documentos e que mais tarde veio a dar problemas: o proprietário, ao ver o negócio de Manuel da Conceição Graça crescer, quis ser seu sócio.

O fundador da MCG recusou e, volvidos 15 meses de ação em tribunal, viu-se assim obrigado a abandonar o espaço onde tinha instalada a empresa.

Um apoio fundamental

Nesse momento e já com 80 trabalhadores, Manuel da Conceição Graça tinha já adquirido a José Lacerda Pinto Barreiros um terreno no Carregado.

Mas ainda não tinha as instalações prontas e as pessoas trabalhavam em péssimas condições, à chuva e ao sol, debaixo de uns encerados sobre estruturas feitas de varolas de eucalipto.

Foi então que várias pessoas que tinham estima por Manuel da Conceição Graça lhe deram apoio no negócio. A Câmara Municipal de Alenquer ficou entusiasmada com o projeto da nova fábrica, ajudando na montagem da cabine elétrica e no transporte de materiais para a construção.

Reputação Internacional

Foi assim que as novas instalações da MCG foram crescendo em várias fases. Em 1961 já contava com 120 operários e começava-se a ouvir falar nas linhas de montagem desta empresa portuguesa.

Foi então que a firma Garrido & Filho entregou a Manuel da Conceição Graça o fabrico de 20 cabines para camiões da marca Scania.

Mais tarde, na apresentação oficial desses veículos, foram os próprios responsáveis da marca sueca que comunicaram a decisão de adjudicar ao fundador da MCG o fabrico de mais 250 unidades. Confirmava-se assim a entrada no mundo da indústria automóvel internacional.

Produção e preparação de cabines para várias marcas internacionais
Produção e preparação de cabines para várias marcas internacionais


A PRIMEIRA PRENSA HIDRÁULICA DA MCG

A encomenda de 250 cabines para camiões por parte dos suecos da Scania obrigava a um forte investimento, especialmente porque o fundador da MCG desejava adquirir uma prensa hidráulica que “alavancasse” a produção, que na altura era artesanal.

Mas o preço desta máquina era ainda demasiado elevado, pelo que teve de surgir outra solução, que passou pela construção de uma prensa baseada numa bomba hidráulica retirada de um lagar de azeite.

Esta estrutura feita naquele tempo pelos próprios trabalhadores da MCG chegou mesmo a estampar peças para dezenas de cabines.

Foi então que o engenheiro Poleri de Campos, funcionário da firma Metalúrgica de Benfica, garantiu a produção de uma prensa hidráulica de 300 toneladas para a MCG. E os horizontes da empresa abriram-se ainda mais…

Ford e GM em Portugal

Um agente da Ford na região alertou Manuel da Conceição da Graça de que a marca norte-americana pretendia adquirir um terreno em Portugal para implementação de uma linha de montagem.

O protagonista desta história disponibilizou-se desde logo a ajudar, tendo nessa altura chegado ao contacto presencial com os principais responsáveis da Ford no nosso país, apresentando-lhes uma solução de 80.000 m2 na zona da Azambuja, perto do Carregado.

Mas Manuel da Conceição Graça estava a tentar vender um terreno que não era seu! Após bastante insistência, convenceu o engenheiro José Rodrigues Vaz Monteiro, proprietário do terreno, a efetivar o negócio.

Mas esta parte da história não fica por aqui. Uma semana mais tarde, o fundador da MCG deslocou-se aos escritórios de Lisboa da General Motors (GM) e fez uma proposta semelhante, pois a GM preparava-se para comprar um terreno em Setúbal para o mesmo efeito.

Avançou-se para uma visita ao terreno, onde um responsável norte-americano da marca mandou instalar uma mesa com whisky e aperitivos para uma reunião. o negócio era simples: a GM queria adquirir 250.000 m2, mas o preço teria de ser um escudo por metro mais barato do que o preço do negócio da Ford.

O desconto foi feito e foi assim que tanto a Ford como a GM instalaram as suas novas fábricas em Portugal.

Evolução industrial…

Sob este cenário, o inevitável aconteceu. As fábricas instaladas na Azambuja fizeram propostas de trabalho à MCG, por saberem que esta empresa já contava com uma prensa de 300 toneladas e uma mesa de igual capacidade.

Negócios que “roubaram” muitas noites de sono a Manuel da Conceição Graça, em busca de soluções que viabilizassem os investimentos necessários.

A Ford adjudicou à MCG o fabrico dos tejadilhos e das portas para as carrinhas Transit, componentes que também a GM necessitava para montar em veículos Bedford do mesmo género.

Foi assim que a empresa avançou para a aquisição de uma prensa hidráulica de 190 toneladas. Mas estes negócios traziam um outro grande desafio: a necessidade de se iniciar a produção de moldes destinados aos processos de estampagem de peças automóvel, algo que ainda hoje acontece na MCG…

A MCG iniciou o trabalho de estampagem de peças para automóveis com uma prensa hidráulica de 300 toneladas.
A chegada das primeiras prensas obrigou à reformulação dos espaços de trabalho na fábrica da MCG da altura.