“A MCG ESTÁ VIVA!”
Francisco Sousa Alves trabalhou no departamento de manutenção da MCG durante 40 anos. Hoje, já reformado, ainda visita a empresa muitas vezes para rever amigos e mostra-se surpreendido ao ver que a MCG continua a evoluir quando várias empresas neste sector já não existem.
Em que ano entrou para a MCG?
Em Outubro de 1963, regressei da Guiné, do Ultramar… Passado pouco tempo, entrei na MCG, em Julho de 1964. Quando fui saber das condições do trabalho, estava à porta da oficina um homem alto, forte, com um fato macaco cinzento vestido. Disse-lhe que queria fala com o Sr. Manuel da Conceição Graça e ele levou-me para um pequeno escritório. Quando ele me disse quem era, nunca me tinha passado pela cabeça que aquele homem era o patrão Manel, que foi como lhe chamei durante 40 anos.
Já sabia do ofício ou houve alguém na MCG que lho ensinou?
Como já tinha experiência como mecânico, porque trabalhei numa oficina no Cartaxo antes do serviço militar, vim trabalhar para a MCG quando começou a produção das carroçarias para as camionetas da Scania. Vim para a manutenção, mas fazia mais coisas.
Já trazia experiência de mecânica, por isso foi só ir dando continuidade. Também mexia num torno mecânico, ajeitava-me com tudo. Sempre tive noção de que tinha de haver progressão, que também era preciso ser polivalente.

“Sempre tive noção de que tinha de haver progressão, que também era preciso ser polivalente.”
Evoluía sozinho, então…
Sempre fui muito atento a livros e aos manuais das máquinas, para ir trabalhando cada vez melhor, mas não aprendi tudo sozinho. Aprendi com colegas e também fiz formações de mecânica, de hidráulica…
O Sr. Manel era muito perspicaz e desde cedo começou a enviar-me para cursos em Lisboa e etc. Alguns fora das horas de trabalho, mas valiam a pena. Não era para todos: eram para quem tinha vocação e para quem mostrava que tinha interesse em aprender sempre mais. E para quem gostava. Se nós gostarmos do ofício, é meio caminho andando para o sucesso.
Caso contrário, é muito difícil.
Como era o dia na MCG?
Era uma mistura de bom ambiente entre a malta e de exigência no trabalho. Eu tinha disciplina. O patrão Manel era muito atento e mantinha sempre tudo na linha e a produzir depressa e bem para mandar logo para o cliente, sem demoras. Mas preocupava-se connosco: tínhamos de estar bem para podermos trabalhar bem, não é verdade? O patrão Medeiros era igual, um pouco mais brincalhão, mas também “apertava” comigo e com os outros. Mas sempre com razão.
Era complicado ir coordenando as equipas a seu cargo?
Alguns dias sim, mas corria quase sempre tudo bem. Das formações que fiz trouxe vários ensinamentos que me foram úteis para trabalhar com a equipa.
Exemplo? Era como eu lhes dizia: planeia-se, prepara-se, executa-se e controla-se. Seguindo estes quatro itens, bate sempre tudo certo. E resultava. E há mais. Na qualidade, por exemplo, também havia a regra: apostar sempre nas melhorias contínuas, fazer bem à primeira com zero defeitos. Há coisas que aprendemos e ficam para a vida, para trabalharmos melhor.

“Planeia-se, prepara-se, executa-se e controla-se. Seguindo estes quatro itens, bate sempre tudo certo.”
Lembra-se de alguma história engraçada?
Oh, tantas! Mas conto uma rapidamente: certo dia andava eu a verificar se estava tudo bem com uma torre de refrigeração e a carregar com o busca-pólos num disjuntor para ver se o sistema arrancava. Escapou-me a outra mão, tive de me agarrar e meti lá os dedos no barramento… Gritei mais que a sirene com o “esticão” que levei! Depois disse-me um engenheiro cá da MCG aquilo que eu não sabia: não se pode “brincar” com o que andamos a fazer, temos de ter o máximo cuidado para estarmos seguros e não nos magoarmos no trabalho.
Algum momento que o o tenha marcado em particular?
Muitos! Mas ajudei a montar a primeira prensa hidráulica da MCG, de 300 toneladas. Foi uma enorme alegria para todos vermos sair as primeiras peças estampadas e prontas a montar… Foi a partir daí que se notou que não mais parou o investimento em instalações e em máquinas. Felizmente acompanhei muito desse percurso da empresa, até ao dia em que me reformei.
O que significou a MCG na sua vida?
O patrão Manuel da Graça não me deu trabalho, deu-me um “trabalhão” que durou 40 anos! Mas se voltasse ao ponto zero fazia tudo exatamente da mesma forma como fiz, que não haja dúvida. Às vezes até sonho com os tempos em que cá trabalhei e que felizmente aproveitei bem.
