“FOI AQUI QUE CONSTRUÍ A MINHA VIDA”

Carlos Levezinho começou o seu percurso na MCG em 1969, tinha então 15 anos. E durante 43 anos trabalhou muito e assistiu com respeito a grande parte da evolução desta empresa.

Em que ano entrou para a MCG e para fazer o quê? Quantos anos tinha?

Tinha feito 15 anos há pouco tempo quando cheguei à MCG. Lembro-me do primeiro dia como se fosse hoje. Fui recebido pelo Sr. José Pedro, que era o encarregado geral, que depois chamou o encarregado dos bate-chapa, que era o Sr. António Maria, uma pessoa que sempre me estimou.

Vim para aprendiz de bate-chapa junto com mais 12 ou 13 rapazes e ganhava 12 escudos. E já cá trabalhavam mais de 60 pessoas: bate-chapa, torneiros, carpinteiros, serralheiros, estofadores, pintores… E cada um de nós fazia tudo o que era preciso fazer, desde limpar as oficinas até aquecer a fornalha para aquecer os almoços para todos os trabalhadores.

Documentos Antigos. Carlos Levezinho mostra-nos um Recibo de Vencimento da década de 1980 na MCG.

Aprendeu o seu ofício na MCG, certo? Havia vontade de ensinar e de aprender?

Dizia-se na altura que a MCG era a escola dos bate-chapa. A MCG tinha muitos bons profissionais nesta área, que me ensinaram tudo o que sabiam. Nós aprendíamos mesmo sem eles estarem a explicar, porque nós tínhamos mesmo de fazer os trabalhos que eram precisos fazer. E era assim que se aprendia. Meteram-me a trabalhar sozinho e fui aprendendo, evoluindo… Dependia do trabalho que se fazia, dependia de muita coisa. Iam-nos dando o maçarico para aprendermos a soldar, íamos aprendendo tudo.

Documentos Antigos. Carlos Levezinho mostra-nos uma Ficha de Ferramenta da década de 1970 na MCG.

Coordenar equipas era algo complicado na MCG?

Naquele tempo não era e vou dizer porquê. Porque eramos todos conhecidos, no fundo; eu tinha trabalhado ao lado deles! Mesmo quando havia alguma resistência em certas situações, com amizade chegávamos todos a um entendimento e tudo corria bem.

Qual o maior salto de evolução de que se lembra ao longo do tempo?

Uma evolução muito grande. Desde a entrada do Sr. Medeiros que houve muitas modificações. Passámos a ter melhores condições enquanto funcionários…

Por exemplo, foi ele que introduziu a existência de uma caixa de ferramentas para cada um de nós, os mestres tinham todos ferramentas e materiais próprios.

Ainda tenho lá serrotes de cortar ferro feitos por mim aqui na MCG! Mas a primeira prensa chegou em 1968, um ano antes de eu chegar. As peças começaram a ser estampadas, mas havia depois muitos acabamentos a fazer à mão. A MCG hoje não tem nada a ver com o que era antes, naturalmente…

Foram mais de 43 anos passados por Carlos Levezinho na MCG…

“No último dia consegui despedir-me pessoalmente de toda a gente nesta empresa.”

Lembra-se de alguma história curiosa que possa contar-nos?

Lembro pois! Uma que aconteceu logo no primeiro dia… O encarregado dos bate-chapas colocou-me logo a ajudar os mais velhos e um destes chegou-se ao pé de mim e disse: “Vê lá se tenho aqui alguma coisa no olho…” Cheguei-me perto e ele atirou-me com a boca um “bochecho” de água na cara. Fui eu que fui repreendido pelo encarregado, que viu tudo, mas via-se desde logo que ia ser assim todos os dias e que era o papel dos encarregados “andarem em cima” de tudo.

Em que não saiu da empresa? Como foi o dia da sua saída da MCG?

Saí em 2004, com as lágrimas nos olhos. Um dos meus maiores orgulhos está numa está numa coisa muito simples: no último dia consegui despedir-me pessoalmente de toda a gente nesta empresa. Já cá trabalhavam mais de 400 pessoas e apertei a mão a todas elas nesse dia.

O que significou a MCG na sua vida?

Foi tudo. Passei 43 anos da minha vida aqui no Carregado. Entrei como rapaz pequeno, tornei-me homem… Foi aqui que construí a minha vida… Respeitei sempre toda a gente e toda a gente me respeitou. Tudo o que eu disser será pouco… E não tenho qualquer razão de queixa da MCG

Que mensagem gostaria de passar aos mais novos que chegam à MCG?

Acima de tudo, têm de ser profissionais e respeitar a empresa. Trata-se de uma empresa muito grande; se estimarem a MCG, a empresa será boa para eles, não tenho dúvidas.