“PASSEI NESTA EMPRESA MOMENTO MUITO BONS, MUITO FELIZES”
Maria Odete Santos tem centenas de histórias para contar dos tempos em que trabalhava na MCG. Sempre muito bem-disposta, contou-nos muitas delas e explicou-nos ao pormenor como era há vinte anos a vida de uma operadora de produção.
“De bem com a vida” e “com muitas saudades dos tempos em que trabalhou na MCG” – Manuel da Conceição Graça como operadora de produção na área automóvel. É assim que Maria Odete Santos nos responde quando lhe perguntamos como está e como se sente por estar de visita à empresa após alguns anos. Fez recentemente vinte anos que saiu das suas funções na MCG e a memória ainda está fresca quando nos conta mil e uma histórias e peripécias no seu dia a dia e no seu trabalho de antigamente…
Fale-nos um pouco de como chegou à MCG…
Eu trabalhava numa padaria no Carregado, ganhava pouco dinheiro. O pai dos meus filhos partiu para a Alemanha e eu achei que tinha de trabalhar para mim e para a minha filha. Fui pedir trabalho ao Sr. Manuel da Graça e a uma fábrica de álcool que havia aqui na zona. Quem me desse primeiro trabalho, era para onde eu iria.
Arrependi-me muito de ter ido primeiro para a fábrica de álcool, o trabalho era uma tristeza. Eu não era feliz ali. Saí de lá, mas tinha muita vergonha de estar desempregada… Voltei a pedir trabalho ao Sr. Manuel da Graça. Ele falou com o Sr. José Pedro, que era o encarregado, e decidiram dar-me trabalho depois das férias. Assim que o Sr. Manuel me disse que sim fui a mulher mais feliz do mundo! Já podia ir para o quintal e falar com as vizinhas, já não tinha vergonha por estar desempregada. Eu não sabia viver sem trabalho, tinha vergonha. Trabalhei muito graças a Deus. E acreditem quando digo que trabalhei sempre feliz. Eu era uma flor, tinha 22 ou 23 anos. A minha filha nasceu em 1965, por isso isto foi em 1968 ou 1969.
Fiz sempre o mesmo trabalho na empresa, fui operadora de produção na Metal1 [a principal fábrica da unidade de negócio MCG Automotive].
Como foram os seus primeiros tempos de trabalho na empresa?
Quando cheguei éramos cinco senhoras no mesmo serviço: eu, a Manuela, a Lavínia, a Maria José e a Catarina. Tenho uma fotografia muito grande de quando a primeira prensa foi montada na MCG, gastei cinco contos [o equivalente a 25 euros hoje] a mandar fazê-la! Tenho as recordações todas.
Vim para a linha de produção em que se colavam as borrachas das portas da Ebro, uma carrinha que vinha da Suécia. Não, não, as borrachas eram montadas nas carrinhas mais altas, as Scania. Quando cheguei estavam a ser montados dois carros, um carro funerário e um carro de bombeiros!
Depois passei cá para as instalações da MCG. Fui a primeira mulher a trabalhar na fábrica nova, a primeira a sair das fábricas antigas no Carregado. Vim trabalhar para a secção dos balancés [pequenas prensas de estampagem de componentes metálicos].

“Tinha um livro em que fazia o desenho das peças, a altura da máquina, o número da ferramenta [molde]. Tudo registado à minha maneira, um livro cheio de desenhos.”
Como se aprendia a trabalhar naquela altura?
Eu só tenho a 4ª classe antiga, mas gostava de fazer sempre tudo bem. Estive uma “mão-cheia” de anos na secção de balancés. Até tinha um livro em que era eu que fazia o desenho das peças e escrevia a altura da máquina, o número da ferramenta [molde]… Eu tinha ali tudo registado à minha maneira, tenho um livro cheio com os meus desenhos! Foi assim que aprendi a trabalhar. Depois a peça ia a aprovar e saía tudo muito bem. Foi assim que eu aprendi, não foi só com o que me ensinaram. Depois chegaram muitas funcionárias cheias de “peneiras”, ganhar mais cinco contos do que eu… Fiquei muito revoltada, mas no final do ano os patrões compensaram-me, sabiam.
Lembro-me que uma vez produzíamos uma peça muito “engraçada”: de um lado saía sempre bem, mas do outro não, tínhamos de ir corrigi-la com a chave de fendas. Os chefes pensavam que sabiam fazer tudo muito bem, mas não sabiam fazer nada. Se de um lado estava bem e do outro não, porque não colocar a máquina um pouco mais para baixo? Não deixavam. Mas eu teimava, fazia à minha maneira e depois ficava tudo muito bem.

“A MCG foi a única ‘casa’ que me fez uma mulher feliz na vida. Foi esta ‘casa’ que me deu a vida; bati à porta de muitas mas eu queria esta.”
Saiu da MCG em 2023… Ainda se lembra como foi o seu último dia?
Foi triste. E acreditam que na noite a seguir não conseguia dormir? Estava preocupada com as peças que tinham ficado na máquina, se tinham saído bem, vejam lá a minha preocupação. Tive muitas saudades, mas o meu marido precisava de mim.
Como era a relação diária entre as pessoas da MCG?
Fomos sempre muito felizes nestas fábricas. Só quando começaram a chegar mais trabalhadores, mais gente nova, é que as coisas começaram a mudar um pouco. Conhecíamo-nos todos, éramos todos praticamente todos amigos. O ambiente era muito bom, era muito saudável, brincávamos muito uns com os outros! E o patrão era bom para nós. Gostei muito de todos, do Sr. Manuel da Graça, do Sr. Medeiros, dos netos José Miguel e Isabel.
Depois de sair foi acompanhando o que a empresa tem feito certamente. O que acha da evolução da MCG?
Sempre. Isto está é tudo muito diferente, eu já não reconheço esta casa! Tudo tão evoluído, muito “fino”! É tudo bem mais fácil para os trabalhadores, não é? Na nossa altura até a chegada dos primeiros empilhadores nos faziam ficar admirados. Costumo dizer que foi quando me fui embora é que as coisas começaram a ser mais fáceis. Tanta tecnologia, tanta coisa… Mas eu acho que não iria conseguir acompanhar esta evolução!

“Sinto uma certa vaidade quando falo dos 30 anos em que fiz parte da MCG”
Lembra-se de alguma história curiosa que se tenha passado na MCG e que nos queira contar?
Ah, tantas! Olhem, a certa altura eu vivia na Amadora, vim um dia trabalhar, entrei às 8 horas. Trabalhei o dia todo e depois fiquei toda a noite a esfregar o chão porque era preciso estar impecável, pois no dia a seguir havia visitas de clientes. Às 4 horas da manhã quase morria de frio, mas aguentei e voltei a entrar às 8 horas e trabalhei o dia todo. Nesse dia seguinte, quando fui embora às 18 horas, quando ia a chegar a Campolide, o revisor do comboio teve de me acordar. Uma noite e dois dias de trabalho, aguentei eu. Ganhei aqui bom dinheiro, até ao sábado vinha trabalhar para ganhar 14 contos na altura!
Uma vez eu ia a entrar na casa de banho e vinha com o Chico Guiné a passar e eu brinquei com ele: “Olé, Olé!”. E ele veio aqui na minha direção para me apanhar! E havia malta que por altura do Natal ia sempre almoçar fora em grupo. Uma colega uma vez foi, bebeu demais e quando voltou estava tão mal que teve de ir muitas vezes à casa de banho, não aguentou! Depois, por ter vergonha, despediu-se! Eram estas coisas simples, mas muito divertidas. Eu ria-me muito sozinha. Tenho recordações fantásticas…
Tem saudades da vida que tinha nesta empresa?
Pergunto-vos eu: qual o maior sentimento mais forte que há? O amor? Não, o amor acaba. É a saudade! Desde 1950 que recordo tão bem tudo o que fiz na minha vida… A saudade é a coisa mais forte que há. E tenho muitas saudades desta casa, mas eu já não posso voltar para cá. Foi a única casa que me fez uma mulher feliz na vida. Foi esta casa que me deu a vida; bati à porta de muitas, mas eu queria esta.
Já depois de ir embora ainda agradeci muito ao Sr. Manuel. Um dia estava ele no carro ali junto à praça em Alenquer. “Sr. Manuel, nunca é demais eu agradecer-lhe, obrigado por tudo o que fez por mim desde que me deu trabalho”, disse-lhe eu. Há pessoas que não fazem ideia do que sentimos quando nos dão trabalho. É uma felicidade tão grande…

“Quando vejo as pessoas com a farda da MCG na rua, falo com eles e digo-lhes para estimarem os bons patrões que têm porque eles nunca me faltaram com nada”
Que mensagem gostaria de deixar a quem entra agora na MCG, tal como você entrou naquele tempo?
Que aprendam o mais possível e que estimem os patrões, os donos desta empresa. Quando vejo as pessoas com a farda da MCG na rua, falo com eles e digo-lhes para estimarem os bons patrões que têm porque eles nunca faltaram com nada. E eles confirmam que sim, que no final do mês nunca falhou um único pagamento.
O que significou a MCG na sua vida?
Passei nesta empresa momentos muito bons, muito felizes. Gostei sempre muito do meu trabalho, sempre com muito gosto. Trabalhei sempre com muito gosto. Fui muito feliz nesta empresa, podem crer. Gostei muito de toda a gente, toda a gente me ajudou…. Deram-me sempre muito trabalho, tive oportunidade de ganhar dinheiro extra trabalhando mais horas, porque eu precisava. Ainda tenho todos os recibos de vencimento guardados no sótão.
