E o segredo desvendado por Manuel da Conceição Graça para superar este desafio está relacionado com… araldite.
O fundador da MCG colaborava nessa altura com uma fábrica da Volkswagen na Alemanha por causa de um modelo de cabine de um novo camião da Scania, e foi um engenheiro dessa fábrica que o aconselhou a fabricar os moldes em araldite.
Como não conhecia o processo de fabrico, o protagonista da nossa história foi até Itália procurar, na fábrica da Alfa Romeo, um outro engenheiro que era muito bom nestes processos de fabrico.
Aproveitando para visitar a feira de Milão, Manuel da Conceição Graça encontrou o engenheiro italiano, que esteve assim um mês em Portugal a ensinar os operários da MCG a produzir os referidos moldes, tão necessários para dar resposta à produção solicitada pela General Motors e pela Ford.
Foi encomendada a primeira prensa de 1.000 toneladas e, enquanto esta era fabricada, começou a produção do molde do tejadilho da Ford, empresa que enviou engenheiros para verificação de ambos os equipamentos.
Chegado o momento, estes engenheiros ficaram muito admirados, pois nunca tinham visto moldes para estampar chapa feitos em araldite. E Portugal nem era um país produtor de automóveis…
O processo avançou e dos primeiros ensaios resultaram alguns problemas decorrentes do metal comprado à Siderurgia Nacional para o efeito.
A chegada dos tejadilhos à linha de montagem da Ford em Azambuja tardava, até que o diretor de estampagem da Scania colocou Manuel da Conceição Graça em contacto com dois engenheiros de uma siderurgia belga, que analisaram o molde e a prensa.
O metal comprado nesse país permitiu produzir peças perfeitas. Quando os engenheiros ingleses as analisaram e viram sair da prensa tejadilhos perfeitos, sorriram, abraçaram Manuel da Conceição Graça e disseram: “Em Portugal também se aprende!”.
No início da década de 1970, com o bom ritmo de fornecimento de componentes para as fábricas e linhas de montagem da Ford e da General Motors estabelecidas em Azambuja, localidade bem perto da MCG, Manuel da Conceição Graça subiu a um novo patamar na relação com ambas as empresas.
Aconteceram então dois momentos marcantes na história da empresa: o convite feito ao fundador da MCG para visitar as fábricas da General Motors nos Estados Unidos da América, devido aos responsáveis desta organização gostarem da forma de como os processos decorriam.
E a aquisição do terreno de 72.000 m2 para instalação de uma nova fábrica, uma das que ainda hoje existem, em 1972.
Aprendizagem contínua
A viagem aos Estados Unidos foi a forma perfeita de Manuel da Conceição Graça ver de perto como se executavam vários trabalhos de estampagem.
Nas visitas às fábricas das marcas de automóveis Buick, Cadillac e Pontiac, o protagonista desta história teve sempre a companhia do Eng. Almeida, diretor-geral da General Motors em Portugal na altura. Esta visita foi uma grande aprendizagem.
Revolução em Portugal
Os anos passaram e em 1974 dá-se a revolução política e militar do 25 de Abril em Portugal.
As encomendas escasseavam, mas a MCG conseguiu autorização para continuar a produzir cabines para veículos da Scania, apesar de o trabalho não ser pago e de os componentes terem de ficar em armazém até que a situação normalizasse, aguardando montagem nos chassis.
Para viabilizar este trabalho, que evitou que a fábrica parasse e que os postos de trabalho ficassem em risco, Manuel da Conceição Graça contraiu vários empréstimos bancários.
Mas a revolução trouxe outro problema: a instabilidade na relação com alguns colaboradores da empresa.
“Em 1974 tinha já 130 trabalhadores na MCG, mas felizmente a maioria eram como se fossem família, já trabalhávamos juntos há muitos anos e tinham estado sempre ao meu lado nas horas boas e nas más”, assim escreveu o próprio Manuel da Conceição Graça sobre a forma como conseguiu superar a influência da revolução de 25 de Abril daquele ano no dia a dia na empresa.
Apesar da instabilidade nos contextos empresarial e industrial, continuou a ser possível à MCG pagar atempadamente vencimentos, impostos e empréstimos contraídos.
É então que Manuel da Conceição Graça começa a pensar em ser também agricultor, face ao “desejo de produzir produtos para a nossa alimentação e os quais pudessem ser consumidos todos os dias”, como referiu.
Na década de 1980, a MCG crescia a bom ritmo e afirmava-se como indústria de referência em Portugal. Manuel da Conceição Graça era, naturalmente, muito importante a todos os níveis na atividade e administração da empresa.
Contudo, o fundador da MCG confiava em grande parte a gestão dos negócios ao seu genro José Medeiros, que já era naqueles tempos o Diretor-Geral da empresa.
E foi já com ele ao “leme” que a MCG acolheu a produção de vários componentes para um projeto português!
Foi na MCG que nesta altura foram produzidas várias partes da carroçaria do UMM, um veículo todo-terreno que era construído em Portugal e fez enorme sucesso durante vários anos.
José Carlos Caseiro (com quem falámos na edição #07 da Revista M, a revista da MCG) foi um dos “bate-chapas” que ajudou a produzir vários componentes para este jipe, especialmente capôs.
“Fazíamos quatro capôs por dia para o UMM”, lembra este antigo colaborador, falando de um componente que era estampado nas prensas e depois trabalhado manualmente para garantir a qualidade que já na altura a MCG atribuía a cada projeto.
Os projetos de produção para alguns dos maiores construtores de automóveis na Europa avançavam a bom ritmo.
Em plena década de 1980, aos vários projetos já em produção juntou-se o fornecimento de componentes para a carrinha Ford P100, por exemplo.
Pedro Simões, antigo supervisor MCG Automotive com quem falámos na Revista M #04, referiu-se a este projeto como um dos maiores naquela altura, juntamente com um outro de produção de portas também para o mesmo fabricante.
José Carlos Caseiro, operário-chefe nessa década (e de quem já falámos atrás) lembra-se de todos os componentes para esta carrinha serem trabalhados à mão após a estampagem nas prensas. Várias peças, de diferentes dimensões.
Paixão pela criação de gado!
Já por aqui falámos do gosto especial que Manuel da Conceição Graça tinha pela agricultura e criação de gado.
Foi nesse sentido que surgiu então a sua apetência para criar negócios também nestes sectores, atividades que representaram o investimento na aquisição de vários terrenos agrícolas e a construção de várias explorações para criação de gado.
A título de curiosidade, refira-se que naquelas que hoje são as instalações principais da MCG (que entraram em funcionamento em 1978) existiam vários edifícios dedicados a este tipo de atividades.
Nesses locais estão hoje construídas várias fábricas que compõem o complexo industrial da MCG.
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